23.4.08

Show de amadorismo!

Bem, qualquer pessoa que lê jornais físicos ou online já deve saber que houve um tremor de terra no Brasil, há algumas horas, que pôde ser sentido em SP, RJ, PR e SC. Ou pelo menos, em cidades ou regiões destes estados. Eu, por exemplo, estava na Gávea por volta das 21h, quando foi relatado o ocorrido e não senti nadinha. Mas, enfim, teve gente que sentiu e a verdade é que foi o mais próximo de um terremoto que o Brasil já chegou. Durou cerca de cinco segundos e atingiu 5,2 na famosa escala Richter (que já faz algum tempo, aprendi que não é Ritcher... E eu sei que não tem nada a ver, mas agora estou com 'Menina Veneno' na cabeça, hehe. Não reparem, lapsos de loucura...).

Aaaaanyway, não é para comentar o semi-terremoto em si que estou aqui, mas sim outros lapsos estranhos. Todos combinados em um: a reportagem que a Rede Globo produziu sobre o fenômeno. Gente, o que foi aquilo? Começa William Waack a contar a notícia e Christiane Pelajo continua. Até aí nada demais, é a Central Globo de Jornalismo de sempre. Até que a âncora chama uma repórter do RJ para dar detalhes. Começa uma diversão cruel. Eu sei, poderia ser eu! Na verdade não eu, nunca quis nem pretendo fazer TV, meu negócio sempre foram os impressos. No máximo, eu poderia ter escrito o texto que ela errou sem parar. Mas poderia ser alguma amiga. E na verdade, ela não deixa de ser uma colega de profissão, mesmo desconhecida. Mesmo assim, não consigo não contar quantas vezes ela erra. Desde a demora na entrada (totalmente perdoável) até o ponto em que dá vontade de virar diretor de novela. Corta!

Coitada da moça. Não acho que era sua estréia, na verdade, lembro-me de tê-la visto antes. Pode até ser veterana, sei lá. Mas ficou muito nervosa com o tremor de terra! Talvez tenha sentido alguma coisa...

"Ah, mas foi só isso?" Não, antes fosse. A jornalista chama SP e outra repórter entra em cena. Ela sim parece cruel, já que entra no ar sorrindo como se estivesse cobrindo uma Expo Noivas e Gestantes, ou ainda uma Feira de Filhotes. Vejam bem, não está gargalhando, mas o sorriso é bem perceptível. Logo depois some. Ufa, coerência. Será? O semblante estranho dá lugar a uma locutora de jogo de futebol. Ninguém ensinou a esta pessoa que jornalismo televisivo não é rádio? Ela fala rápido, muito mais do que o normal e articula a boca demasiadamente. Emenda frases sem respirar. Tenta diminuir o ritmo em um momento, sem muito sucesso.

A próxima parte da reportagem, narrada com imagens e depoimentos de moradores de SP foi Padrão Globo de Qualidade. Mapinhas de infográficos e explicações detalhadas. Tudo ótimo e o principal, um jornalista no ponto. Nada a declarar. Se a produção fosse encerrada ali, o final salvaria o meio atabalhoado. But there was more to come...

William Waack chama um repórter direto do Observatório Sismológico da Universidade de Brasília. Desta vez, a culpa não foi do jornalista. Ele entrevista o chefe do observatório. Por que mesmo eles foram a Brasília cobrir isto, hein? Não tinha nenhum outro profissional mais apto a falar ao vivo não? Desculpem a ignorância, sequer sei se existem outros centros como o de Brasília, mas devem existir, certo? Em SP ou no Rio? No Sul, talvez, para que ninguém me acuse de achar que só no Sudeste há tecnologia...

Enfim, também não quero ser taxada de preconceituosa. Meus comentários NÃO são referentes ao sotaque do referido senhor, que fique claro! Mas será que alguém conseguiu entender tudo o que ele disse? Se entendeu, pegou alguns erros de português bem desagradáveis no discurso. Será que é pedir muito que o chefe do observatório sismológico supostamente mais importante do Brasil saiba se expressar um pouco melhor?

O tormento acaba quando finalmente o repórter chama de volta William Waack. A exibição original foi para o Jornal da Globo, mas a internet está aí para (semi) imortalizar as coisas e é claro que o vídeo rapidinho foi parar na Globo.com, onde o assisti.

Para compartilhar desta magnífica experiência jornalística basta clicar no título.

15.4.08

A arte de valorizar o que é nosso

Em tempos de celebridades instantâneas e procriação de BBBs é importante parar por um minuto que seja e celebrar o que a gente possui. O que é nosso e ninguém tira. Pode ser uma situação que esteja ocorrendo, um relacionamento, uma alegria. Ou pode ser tudo isso junto, quando a pessoa é iluminada o suficiente para ter orgulho de tudo que é e possui (não falo só de bens materiais, é claro!), e nem sequer pensar trocar de vida com outro alguém.

Há um tempo recebi este texto, e gostei tanto que quis guardá-lo. Como ando sem tempo e assunto, achei que faria um post interessante. Espero que gostem.

Até!


A MASSACRANTE FELICIDADE DOS OUTROS
(por Martha Medeiros)

Ao amadurecer, descobrimos que a grama do vizinho não é mais verde coisíssima nenhuma. Estamos todos no mesmo barco. Há no ar um certo queixume sem razões muito claras. Converso com mulheres que estão entre os 40 e 50 anos, todas com profissão, marido, filhos, saúde, e ainda assim elas trazem dentro delas um não-sei-o-quê perturbador, algo que as incomoda, mesmo estando tudo bem.

De onde vem isso? Anos atrás, a cantora Marina Lima compôs com o seu irmão, o poeta Antonio Cícero, uma música que dizia: "Eu espero/ acontecimentos/ só que quando anoitece/ é festa no outro apartamento". Passei minha adolescência com esta sensação: a de que algo muito animado estava acontecendo em algum lugar para o qual eu não tinha convite. É uma das características da juventude: considerar-se deslocado e impedido de ser feliz como os outros são - ou aparentam ser. Só que chega uma hora em que é preciso deixar de ficar tão ligada na grama do vizinho.

As festas em outros apartamentos são fruto da nossa imaginação, que é infectada por falsos holofotes, falsos sorrisos e falsas notícias. Os notáveis alardeiam muito suas vitórias, mas falam pouco das suas angústias, revelam pouco suas aflições, não dão bandeira das suas fraquezas, então fica parecendo que todos estão comemorando grandes paixões e fortunas, quando na verdade a festa lá fora não está tão animada assim.

Ao amadurecer, descobrimos que a grama do vizinho não é mais verde coisíssima nenhuma. Estamos todos no mesmo barco, com motivos pra dançar pela sala e também motivos pra se refugiar no escuro, alternadamente. Só que os motivos pra se refugiar no escuro raramente são divulgados. Pra consumo externo, todos são belos, sexys, lúcidos, íntegros, ricos, sedutores.

"Nunca conheci quem tivesse levado porrada/ todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo". Fernando Pessoa também já se sentiu abafado pela perfeição alheia, e olha que na época em que ele escreveu estes versos não havia esta overdose de revistas que há hoje, vendendo um mundo de faz-de-conta. Nesta era de exaltação de celebridades - reais e inventadas - fica difícil mesmo achar que a vida da gente tem graça. Mas tem.

Paz interior, amigos leais, nossas músicas, livros, fantasias, desilusões e recomeços, tudo isso vale ser incluído na nossa biografia. Ou será que é tão divertido passar dois dias na Ilha de Caras fotografando junto a todos os produtos dos patrocinadores? Compensa passar a vida comendo alface para ter o corpo que a profissão de modelo exige? Será tão gratificante ter um paparazzo na sua cola cada vez que você sai de casa? Estarão mesmo todos realizando um milhão de coisas interessantes enquanto só você está sentada no sofá pintando as unhas do pé? Favor não confundir uma vida sensacional com uma vida sensacionalista. AS MELHORES FESTAS ACONTECEM DENTRO DO NOSSO PRÓPRIO APARTAMENTO.